sábado, 14 de março de 2009

Erros


Erros

Então, erramos de novo
Saímos como da primeira vez
Tortos e sem ar
Incólumes por fora
Destroçados por dentro

Os mesmos erros são difíceis de tolerar
Ferem a ferida que mal tinha cicatrizado
Fazem quase morrer as esperanças
E reavivam as mais tristes lembranças
O reprise daquele velho filme

E se vencemos esse amargor mais uma vez
Não esquecemos de como foi duro
Recomeçar do nada, zerar tudo
Ninguém errou,
Ou erramos na mesma proporção

É tudo igual em nossas vidas
Um dia após o outro
E a noite que se aninha entre eles
A trazer o anonimato na escuridão
Para que não saibamos quem está do outro lado

Sincero perdão, embora doa na alma
A questão é sempre a mesma
Que já tornou-se banal o pedido
Dia desses deixarei passar
Cada pensamento arrependido

Às vezes até revejo fotos antigas
Mas admito, prefiro-as bem longe
No fundo de uma gaveta qualquer
Jogadas, amassadas, ignoradas
Perdidas em seu próprio tempo



Anto 30/04/08


domingo, 1 de março de 2009

O menino


O menino

Vida!
Basta que chegue,
Basta um olhar
Aquele abraço terno,
Sincero
Apertado na medida certa
Nem muito, nem pouco
O menino ri,
Sorri,
Corre danado
É vivaz,
É certeiro
(mais um abraço)
Os olhos doces,
(mais vida)
O sorriso aberto,
Verdadeiro
(mais vida)
O menino do bem
Forte,
Alto,
Ligeiro
O menino que bebeu do amor,
Que cresceu do amor,
Que distribui o amor
De graça
Enche de luz até o mais funesto dos ambientes
É o menino abajur,
É o menino holofote,
É o menino astro
Iluminado por si próprio
Deixando leve o denso ar da noite calada
É o menino alado
Que veio do espaço
Menino forte
Feito de aço
(mais um abraço)

Anto 07/04/08

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O dia da razão


O dia da razão

Haja o dia
Em que agirão em tributo
Festejando insólitos atributos
Por bordões meramente sustentados

Rescindiram-se as amarras
E não existe o dolo
Não há bocas, nem caras
O sentir é que se vai distante
Em horas amargas
Em momentos sós
Onde os laços de sangue
Já não importam
E não se reconhecem

A certeza individua
Aquece as mágoas
Se alonga, se arrasta, perpetua
Nas frivolidades que se criam por hábitos
Maus hábitos, maus costumes
Que o orgulho impõe
Sobrepujando o perdão e a compreensão

Há tantos outros males no mundo
Rondando os incautos
Levando-lhes o vigor e a decência
Enquanto lamentamos
A vil e insana decadência
Que se instalou pesada
Segregando a inocência
De quem ainda não havia
Sucumbido totalmente à maldade

Os pormenores agora me fogem
Quando e onde são questões perenes
Sem começo, meio ou fim
Sem apreço, um talvez, um não, um sim
Venha luz,
Traz-me as marcas no rosto
Ainda quero ter o gosto
De contar cada uma delas
E saber que o espelho mostra
A parte anterior e não as costas
Que recebo de tempos em tempos
Como paga à recusa
De apresentar postura curva
E resignada com os açoites n’alma

Creio ter demonstrado clareza
Não me acabo mais em sutilezas
Nem me cabem mais os sermões
Que tomaram-me as lágrimas doídas
De toda uma lacônica vida



Anto 23/04/08


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mudos em Veneza

Aiai... remexendo os arquivos de fotos, acabei achando esse filminho.
Ciola, Juliana, Nayrob, Vinni, Leticia e eu, filmando de soslaio.
Legal, né?
Saudades pessoal!

Carnevale


Carnevale

É Carnaval em Veneza
Vi Casanova
Em suas andanças por entre as cales
A face branca e afogueada,
Mascarada
O manto negro,
Esvoaçando e se perdendo na bruma noturna
No esconde-esconde de pés afivelados
A passear rumorosos, apressados,
Na ansia do enlace de belas damas, uma a uma
Com a pureza disfarçada sob os vestidos
É Carnaval em Veneza
E no resto do mundo uma certeza
Festa da carne,
Dissimulada alegria
De Arlequinos e Colombinas
A rodopiar pelos salões


Anto 24/02/09

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Identidade


Identidade

Morri!
E nem sei o que foi feito de mim…
Esperei ad infinitum por esse momento
Corri,
Amei,
Pari…
Não fiz nada de que me orgulhasse muito
Embora tudo que tenha feito
Resultou em alguma obra momentânea
Um quadro que mofou na parede da sala
Uma comida que foi comida, digerida
Uma palavra que restou sozinha
Na companhia de seu próprio eco…
Escrevi um livro certa vez
Um livro de muitas páginas,
Todas impublicáveis, porém
De palavras nuas
Estranhas
Quietas…
Palavras que andam
Percorrem os espaços vazios
Onde as almas se alevantam, no ziguezague dos rios
Palavras…
Palavras…
Palavras…
Fui um número
É só o que restou de minha identidade
Deram baixa de mim em algum arquivo, hoje sistema
Não por acaso, agora habito um arquivo morto
Que ironia!
Os frutos que colhi
Comi,
Absorvi
As roupas eu vesti
E despi
O medo eu bebi
E esqueci
De nada adiantou,
Já que morri
Um pouco para ti
E outro para mim.



Anto 20/02/09


O dia em que quase enlouqueci

O dia em que quase enlouqueci

Não sei se é possível enlouquecer de uma hora para outra. Muito provavelmente sim, nos casos de doenças mentais, herança genética ou ainda algum trauma.
Mas também acho ser possível enlouquecer de felicidade, de cócegas e de saudades.
Prefiro as três últimas opções, já que me são mais simpáticas e aparentemente desencadeiam um enlouquecimento saudável, na minha opinião. Mas tudo com o devido comedimento.

Capítulo I - A felicidade
É tão bem vinda! Torcemos para sermos felizes e desejamos este sentimento aos que amamos. Nem tanto aos que não amamos bastante. Na realidade, a estes ignoro, na medida do possível. Quem é que vai perder tempo e energia para canalizar augúrios de felicidades aos desafetos? Sei lá. Madre Teresa talvez, só que Madre Teresa não tinha inimigos, eu creio.
Obviamente não desejo mal, mas admito uma pontinha de satisfação ante a uma inofensiva desgraça alheia, especialmente nos casos em que se pode expressar um belo e sonoro “bem feito”, comprovando que o mundo gira em torno do próprio eixo e que o castigo chega a cavalo (e às vezes a pé, mas nunca à toa).
Mas saiamos dos parêntesis. É verdade que a felicidade de alguém pode enlouquecer a outrem e aí mora o perigo. Inveja, ciúmes e ímpetos destrutivos… a felicidade tem que saber lidar com esses inimigos, por vezes ocultos num sorriso, num abraço, num beijo de Judas.
Enlouquecer por vivenciar a felicidade é talvez tão destrutivo quanto enlouquecer por vê-la de longe. Como pode um sentimento desencadear duas maneiras completamente opostas de prová-lo?
Então aproveitemos muito bem os momentos felizes quando pudermos tê-los. E sem enlouquecer completamente.

Capítulo II – As cócegas
Se tem uma coisa que me irrita é sentir cócegas. Até que tenho bastante resistência, mas há alguns pontos extremanente sensíveis, especialmente aqueles que minha filha encontra em suas tentativas bem sucedidas para descontrolar a mãe. Uma sensação horripilante, mas que acaba fazendo todo mundo rir muito, seja o autor, a vítima e os eventuais expectadores. Uma dose de braveza é sempre salutar ante a necessidade de pôr ordem no coreto. Chega!
De outro lado, é absolutamente prazeroso fazer cócegas nos outros. Êta prazer mórbido, de um sadismo infantil, se é que isso existe. Daí porque as crianças são verdadeiras experts nessa arte. E elas, depois de praticar com os irmãos, primos e amiguinhos durante toda a infância, passam a torturar os próprios bebês quando adultas, assoprando suas barriguinhas com aquele barulho de metralhadora enquanto os pobrezinhos gargalham nervosamente, quase à beira de uma síncope. A síncope da loucura por cócegas.

Capítulo III – A saudade
E tem a loucura da saudade. Ah, essa é miserável, tem dó!
Começa boazinha, cheia de pudores, nostálgica. Quase como um princípio de dor de dentes, a gente nem se incomoda muito, mas sabe que ela está lá, meditando, respirando e crescendo como uma massa de pão após o fermento e a sova.
De repente parece ficar mais viva, mais concreta, mais presente. Então já não sabemos se cortamos o mal pela raiz, na cadeira do dentista ou esperamos pra ver se passa sozinha, o que seria muito mais gostoso e econômico.
Dessa forma concluo que a saudade não deve ter prazo de validade e a escolha é nossa. Ou aceitamos vivê-la, arrumamos um lugar quentinho e aconchegante para que ela envelheça ao nosso lado ou podemos dar-lhe um beijo de despedida, agradecer pelos bons momentos e pedir desculpas por qualquer coisa.
Como sou meio do contra e não gostei de nenhuma das alternativas acima, minha opinião é que podemos guardá-la numa caixa dentro da última gaveta da cômoda, junto a fotos antigas e outras relíquias. Podemos esquecer temporariamente dela, pois temos a certeza de que estará lá, como um backup. Quando pipocar alguma lembrança, basta uma espiada rápida, um chorinho talvez e pronto. Revisitar as memórias e um pouco de saudosismo de vez em quando é tão bom…
Só não dá pra casar com a saudade, isso sim seria de enlouquecer.

Anto 17/02/09