sábado, 2 de abril de 2011

Inteligência emocional tem auge aos 60 anos - Superinteressante

Inteligência emocional tem auge aos 60 anos - Superinteressante Bom, vamos esperar que os especialistas da Universidade de Berkeley estejam corretos. Nesta estatística mais uns 20 anos pra ter alguma evolução. Vou começar antes.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Pequenas Epifanias - trecho

Faz tempo não leio algo assim inspirador.
Gostei tanto que quero deixar registrado para ler de vez em quando.


Texto de Caio Fernando Abreu retirado do livro "Pequenas Epifanias".

"Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos…

Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.

Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente?

Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?

Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.

Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.

. . . E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura."

Caio Fernando Abreu

domingo, 13 de março de 2011

Reflexões

Um trecho do Evangelho de São João - Capítulo 1:
"1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio junto de Deus. 3 Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. 4 Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5 A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 6 ..."

Outro dia, entre uma conversa e outra sobre os sentimentos que decorrem das mortes, ganhei de uma amiga (Le) o livro Ágape (o amor incondicional), do Padre Marcelo Rossi. Ela me dizia que o livro tratava de certas passagens da Bíblia, especificamente do Evangelho de São João e que os comentários do padre se encaixavam em determinados momentos da vida das pessoas. Comecei a lê-lo assim que cheguei em casa, mas admito, caí num sono profundo já no prefácio.
Peguei novamente o livro agora a pouco e logo entrei em um assunto que achei interessante, o dualismo entre luz e trevas. 
Em visão simplista, é quase como o dilema do ovo e da galinha, quem nasceu de quem, como um surgiu sem o outro. Desconheço se os cientistas chegaram a determinar algo a este respeito.
Entretanto, na esfera religiosa, o autor nos presenteia com seu parecer filosófico, em explicação bastante didática e permeada com exemplos reais.
Não sou carola, fanática ou coisa parecida, nem entendida em assuntos bíblicos, mas ainda tenho a capacidade de me sentir pequena diante de certos mistérios, de me emocionar, de compreender, de lutar por um ideal ou de me resignar em razão do inevitável.
Assim, achei bacana transcrever o trecho supra e também o trecho logo mais abaixo, contendo as reflexões do autor sobre a existência da Luz.
Espero que gostem.

"O tema da luz está presente em toda a palavra de Deus. A criação do mundo e do homem é uma vitória da luz sobre as trevas. São Paulo revela que o cristão é Filho da Luz.
E o que significa ser Filho da Luz?
O sentido de trevas ou escuridão é dado àquilo que não se vê ou àquilo que não se pode ver porque envergonha. A violência, a corrupção, a mentira, o pecado nos remetem para as trevas. Um marido que espanca sua mulher ou que trai sua relação esconde a ação vergonhosa. O pai que mente para o filho ou o filho que mente para o pai não quer ser descoberto. O falso médico, o advogado mentiroso, o político desonesto, o motorista embriagado, todos de alguma maneira vivem na escuridão. A luz revela, Se há alguma sujeira na casa e as luzes estão apagadas, as pessoas não conseguem perceber a ausência do cuidado, da limpeza. Quando a luz se acende, o que era sujo começa a incomodar.
Cristo é o Filho da Luz. E os cristãos são convidados a ser os novos cristos. Portanto, todos nós somos chamados a ser Filhos da Luz.
Quem vive no escuro tem medo da luz. Quem passa alguns dias dentro de um quarto escuro, com as janelas fechadas, quando entra a primeira fresta de luz, tem a sensação de cegueira de tanto que a luz incomoda. É preciso se acostumar com a luz para que os olhos enxerguem, de fato, a paisagem que antes estava escondida.
A escuridão nos remete aos erros. Não os erros que cometemos. Errar faz parte. A escuridão faz parte dos erros em cuja permanência insistimos. Há tantos erros que são facilmente percebidos, mas a nossa teimosia e comodismo nos impedem a busca de uma nova vida. E incorremos nos mesmo erros. Evidentemente, há doenças que maculam uma vida. Sei o quanto irmãos nossos, doentes do alcoolismo, tentam se livrar e não conseguem. Não julguemos. Há muitos que acusam esses irmãos de vadios, irresponsáveis, fracos. O alcoolismo é uma doença. O usuário das drogas ilícitas também vive um inferno. O inferno do vício, o inferno da escravidão, Por isso prevenir é tão importante. Quando o problema surge, é preciso paciência, perseverança e muito amor. Não se retira um filho das drogas com espancamentos nem com expulsões. Quando o vício já faz parte da vida de um jovem, é preciso mais cuidado ainda, mais amor ainda para que uma nova vida possa surgir. Uma vida iluminada.
A luz é a novidade. A paisagem só pode ser contemplada verdadeiramente sob a luz, sem sujeiras.
Gosto daquela história das duas famílias que moravam uma em frente à outra. Todos os dias, o marido de uma das casas, ao voltar do trabalho, encontrava a esposa reparando nas roupas sujas penduradas na área da casa vizinha. Ficava indignada. Não entendia por que não as lavava adequadamente  primeiro, para só depois colocá-las no varal. E dizia isso com impaciência  e com a certeza de que a vizinha era descuidada e suja. Depois de algum tempo, cansado das reclamações da mulher, o marido deu uma sugestão simples e óbvia. Disse a ela que limpasse o vidro da janela da sala deles, que estava imundo, e, então, veria que não eram as roupas da vizinha que estavam sujas.
História simples com um ensinamento de grande significado. O descuido com a limpeza não era da vizinha, É fácil jogar a culpa no outro. O problema é sempre do outro. Ser Filho da Luz é iluminar a vida para que os meus problemas sejam resolvidos. Para isso é preciso assumir que eles existem. Na história, a mulher não imaginava  que era a sua vidraça que estava suja. Essa é uma questão importante. A dificuldade em ver o meu problema  faz com que eu não consiga solucioná-lo. O primeiro passo para levantar é ter a percepção da queda.
Jesus veio ao mundo, veio para os seus e os seus não O reconheceram. Faltou luz, Ágape é luz. É luz que dissipa as trevas, que dissipa a escuridão. É luz que ilumina e aquece."

Padre Marcelo Rossi - em Ágape

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Encantos e desencantos

Hoje me encantei com o dia
No amanhecer imaginário incendiado pelo sol de costume
Trouxe flores ao invés de pedras nas mãos
E pousei-as suavemente ao teu lado para que as tocasse generoso


Hoje me encantei com o amargo do oposto
E abracei com vontade um tronco cheio de espinhos
Para me livrar das esquecidas verdades
Tal como a chuva de tristeza que se vai pelo caminho


Hoje me encantei com o orvalho de teus olhos feridos
E desse encanto, atinei para o mais óbvio dos efeitos
Será o rancor o mais sublime sentimento
A mostrar o quanto dói e aflige uma dor certeira?


Por que teimamos na mesma mágoa
E gritamos fartamente o quanto fartos estamos
Se nem bem sabemos o quanto ainda queremos
Estar ao lado de quem sempre amamos e julgamos?


Hoje me encantei com algo estranho
E desencantei com algo até bem parecido
É só que me encontro e converso comigo
É só que me corroo os ossos já roídos

Anto 17/02/11

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pra que escrever?

Tenho escrito. Pra retomar velhos hábitos, ocupar certos vazios. Pra matar as saudades de mim. Tenho escrito por um reconforto da alma e pra exercitar os músculos da mente. Tenho escrito pra erguer uma fortaleza de palavras e me abrigar em seus contornos, escondida entre o P e o Q. Pra aquecer meus pés numa fogueira enquanto digito em meu caderno de verdades as mentiras que gostaria de dizer. Acho que perdi o senso da realidade. Me perdi dela faz tempo. Não porque quisesse, a intenção mora longe daqui. Perdi o que se pode perder nessa vida, sem perder a única coisa que não poderia, a própria vida. Estou perdida. Tenho escrito pra não me esquecer das coisas que vivi e, de uma certa forma, pra esquecê-las todas e jogá-las num canto escuro qualquer, de onde não possam fugir. Tenho escrito coisas bobas, sem a menor importância e perdido tempo com isto sem ter consciência de quanto dele ainda tenho nas mãos. Um ano? Uma década? Um século? E se Deus me der muito tempo ainda, o que farei dele? Não tenho tanto mais pra escrever.

Anto 1°/09/10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mãos



Mãos



Quem são elas, as mãos?
Instrumentos do corpo
Que levam adornos
Pegam coisas, realizam tarefas
Que salvam vidas, que trazem à vida
Mãos que trabalham, que constróem
Empunham armas, matam, destróem
Mãos que afagam, acariciam
Que amam e fazem enlouquecer
Mãos que se dão as mãos
Também dizem não
Atam e desatam nós
E a nós
Mãos que enxugam lágrimas
Que causam e curam feridas
Mãos delicadas, mãos partidas
Que escrevem e apagam palavras
Mãos que traduzem notas
E provocam música
Mãos que falam
Mãos duras, mãos pesadas
Que plantam, colhem e recolhem
Mãos podem ser lidas
E podem ler na cegueira
Mãos aladas, mãos brejeiras
Mãos tateiam e encorajam
Estancam e acalmam
Mãos que prendem
Que retêm, que apóiam
Mãos que saúdam
Que oram à Deus
Mãos que dizem adeus

Anto set/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Pedaladas

Domingo à tarde - Elevado Costa e Silva



Domingo de sol, calor, secura no ar. Final de tarde tranquila, sozinha, céu azul. Peguei a bike, segui para o elevado. Algumas pedaladas e cheguei rapidinho. Esta não foi minha primeira incursão ao local, havia estado lá algumas semanas atrás, também de bicicleta, mas apenas com o espírito esportivo, nada mais.

Hoje em especial, muito só com meus pensamentos, aproveitei para levar a câmera. Pedalei com um outro olhar, devagar, observando tudo ao meu redor. Estranhamente, me encontrei adentrando em um outro mundo.

Enquanto seguia, via de pertinho as casas de tantas pessoas, era como se entrasse dentro delas sem ser convidada. Alguns, comedidos, escondiam a intimidade dos lares por trás das cortinas esvoaçantes, outros porém expunham suas vidas em precários terraços, se abraçavam, se insinuavam e riam com copos de cerveja nas mãos, enquanto o som alto que vinha de dentro invadia as pistas não de dança, mas de rolamento.

O sol caía por trás dos edifícios, calmo, bem devagar. Ainda havia luz suficiente e tempo para percorrer o elevado de cabo a rabo, como se diz. Parei sobre um local degradado, chamado popularmente “Castelinho” por sua arquitetura que lembra um castelo de pequenas proporções. Saquei a câmera e tirei algumas fotos. Pichações, uma kombi estacionada, indicando que o prédio serve de moradia para alguém ou vários alguéns. Não fiquei conjecturando outras possibilidades porque queria seguir adiante.

No trajeto desviei de várias pessoas passeando, crianças brincando, jovens fumando e bebendo enquanto jogavam conversa fora, cães correndo alegremente, gente andando de skate, patins, tomando água de côco, tocando violão, lendo, tirando fotos... A diversão mais popular hoje em dia acho que é tirar fotos com as câmeras dos celulares. Vi as pessoas no elevado fazendo pose, fotografando e sendo fotografadas e fiquei pensando como isto é simplório, mas as faz felizes e se sentirem importantes para alguém.

Passei distraída e quase levo uma bolada de um menininho.

Segui observando os prédios ao longe. A Avenida São João, o Arouche, o Edifício Itália, o Copan, a torre do Banespa, o Largo Santa Cecilia, a Santa Casa, os hotelecos da General Olímpio e um sem número de janelas das residências. Algumas até bonitinhas, com suas plantas, flores. Outras empoiradas, vidros quebrados. Tênis secando no parapeito estreito, roupas em varais improvisados, passarinhos prisioneiros em suas gaiolas, gente empoleirada observando quem as observava do elevado, tão acostumadas com aquele indo e vindo de carros durante a semana e os invariáveis pedestres nos domingos e feriados.

Um caminhão de lixo aproveitava para recolher o que os pedestres largavam pelo chão. Era praticamente uma praia sem areia, nem mar. Os garis varrendo, deixando tudo limpinho para a semana que se inicia logo mais. Eu nunca havia imaginado que por ali passava caminhão de lixo.

Alguns locais pareciam ser cortiços. A idéia de cortiço que tenho é a descrição que Aluisio Azevedo faz no homônimo “O Cortiço”, mas faz muito tempo que li, ainda no colégio. Lembro que meu pai contou já ter morado alguns meses em cortiço quando veio para o Brasil. Coisa típica de imigrante que não conhecia o idioma e vivia com as economias que trouxe de fora, enquanto buscava um emprego. Na minha cabeça, um ambiente de cortiço remete àquela coisa de dividir tanque, banheiro, pegar água no poço e ter como vizinhança desde trabalhadores humildes como também putas, michês, moribundos, foragidos, crianças e mais crianças correndo descalças, com seus narizinhos escorrendo. Uma realidade um tanto romanceada, mas presente em outras configurações por todas as esquinas da cidade.

Passei por um quarteto jovem que era fotografado por profissionais com suas câmeras e refletores. Presenciei um meio-atropelamento de uma criança e a mãe desta xingando o menino atropelante, que mal se equilibrava em sua bicicleta de “safado”. Mas, safado?!

Após uma das curvas, vi dezenas de pessoas perfiladas e sentadas na rampa de acesso para o Largo do Arouche. Acendiam seus cachimbos de crack, vários e vários cliques dos isqueiros como vaga-lumes na escuridão do local. Fiquei ali parada por um momento, querendo fotografar essa outra realidade. Pedalei de novo pelo local após alguns minutos, ainda tentada a fotografar, mas não o fiz. O número de drogados havia aumentado. Uma pai passou por mim com sua filha ainda criança, aproveitando o momento para mostra-lhe e explicar-lhe sobre aquilo.

Com aquela triste imagem, achei que estava na hora de ir embora.

Ultrapassei corredores, ciclistas, casais de namorados heteros e gays.

E naquele ínterim o céu escurecia, o sol se escondia um pouco mais e meu domingo terminava silencioso, enquanto à minha volta se ouvia apenas o barulho do vento.

Anto 29/08/10