sábado, 29 de novembro de 2008

Pressa


Pressa

Tens agora nas mãos um pouco de mim
E de mim carregas o perfume ao ventre
Filigranas que se desmancham fácil assim
Ao roçar das coxas, no caos do entrementes

Um olhar que se traduz em assertivo
Se combina com a ilação de pensamentos
Em nada traz nobreza de sentimentos
Ejetados da profunda essência do sentido

Não há o que se fazer nessas horas
Que apaziguar todos os ânimos
Inflamados nas possíveis trajetórias

Da paixão crua do corpo já estendido
Enquanto outro sem pressa o explora
Na urgência do beijar mais desmedido


Anto 29/05/08

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A culpa deve ser da maçã


A culpa deve ser da maçã

Ontem fui conhecer o novo local de trabalho de minha amiga-irmã.
E que local de trabalho, meu Deus!
Dada a sua competência, ela agora é executiva de uma empresa suiça em expansão. Foi pinçada no momento certo pelo seu também suiço boss. Aliás, simpático ele… assim como os demais colegas de trabalho que tive oportunidade de conhecer.
Agora entendi o porque ela anda tão repetitiva em nossas conversas.
Atualmente há dois grandes e recorrentes assuntos em sua pauta. Um deles, o mais agradável, sem dúvida, é o novo trabalho e os meandros desse mundo corporativo internacional.
Todos os dias há uma novidade e, permeando essa novidade invariavelmente vão recordados todos os links anteriores, um a um. Ou seja, cada dia que passa, a história se encomprida um pouco.
O outro assunto… bem… deixa pra lá que não vale nem a escrita e nem a leitura.
Na sequência fomos ao teatro.
Uma peça, ou melhor, um monólogo muito bem articulado pela atriz e cujo roteiro trata das trapalhadas que as três protagonistas (na verdade a mesma atriz que encena vários papéis), em estressantes e hilariantes interações com seus homens, também interpretados por ela. Aliás, aproveito para fazer a divulgação dessa comédia “A culpa é da maçã” (http://www.aculpaedamaca.com.br/), em cartaz no circuito alternativo.
Rimos muito e certamente nos identificamos com algumas passagens típicas do raciocínio, ou do desraciocínio - se é que dá para entender essa expressão – de mulheres solteiras, casadas e descasadas. Ótima! Recomendo para ambos os sexos.
Acabada a peça, seguimos famintas para a boa e velha Vila Madalena. Nem tão boa, nem tão velha para mim, que a evito a todo o custo por causa do trânsito, dificuldade em estacionar, locais lotados, etc… Mas acabamos caindo num restaurantezinho bacana e nem tão cheio, onde pudemos recomeçar nossa conversa habitual.
Foi aí que percebi o quanto recorrente ficamos quando um assunto nos empolga ou nos abate.
Esses dias têm sido o momento dela e embora quase fique tentada a dizer que já me contou a tal passagem umas 18 vezes durante a semana, continuo ouvindo calmamente, porque sei que ela precisa desabafar. Amiga é para essas coisas.
A título de comparação, perguntei-lhe se sou muito recorrente nos meus discursos e, reconhecendo a própria personalidade repetitória, ela sentencia:

- Você é muito mais do que eu, pode ter certeza disso!

Sou?! E durante o blá-blá-blá da interrompida narrativa, por um momento tento me recordar qual teria sido o último assunto problemático ou empolgante que lhe expus com veemência.
Ah, sim, lembrei!
E nas brechas que ela me permite, ou nas que consigo com muito custo abrir um parêntese, posso dar uma certa vazão à minha incontrolável necessidade de ser igualmente repetitiva. Ela tem razão.Afinal a culpa deve ser mesmo da maçã!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Spleen

Spleen


Ah, quem dera pudesse eu provar
Dos Paraísos Artificiais de Baudelaire
E sentir-me entorpecer por completo…

Quisera eu coragem para abraçar ao peito
Todas as Flores do Mal por ele cultivadas
Formosas, estão elas jogadas ao leito
Sentindo-se tão poeticamente amadas…

Não quero dar conta do que é real
Pois já não conjugo o verbo realizar
Transfigurei-me em flor do mal

E tu, que tomastes num dia meu corpo são,
Ora queres minh’alma insana,
Enquanto meu incerto destino
Repousa quieto em tuas mãos…

De que espécie é a sede que padeces?

Te peço, fica comigo, qual desígnio!
Pois se és o fogo que me alimenta,
És também o desforro que me há de fustigar
Ah, tamanha ambigüidade…

Golpeias o escudo sagrado que me protege
E empunhas a lança que me será arremessada em breve
Tencionando a chaga mortal já predita
Tal e qual o são as letais flores malditas
Que alimentam o Spleen que me há de corromper

Ó doce irmão espúrio que está a rondar-me noite e dia
Sacrificas algo mais que a podre vida
Em nome de qual virtude?

És o escravo imoral das vicissitudes,
Quem me ama e mo diz em sonhos
Mas não consegue livrar-se de fardo enfadonho
O nu, o incompleto, o inverídico postiço…

Tens razão em procurar diálogos com esta Rosa-Louca
Ainda que maligna, em flor encarnada
Só a ela foi dado o poder de a ti conhecer
Decifrando o enigma recorrente,
O antídoto ao veneno da serpente
Que está a perverter-te a pureza com incertezas

Cala a boca que leva o mal
Por que ele penetrou-te fundo nas entranhas
E está a corroer-te o espírito de maneira tacanha

Vive pois o dia de hoje
Assim como vivo eu um após o outro
Esperando angustiada o derradeiro
Que há de vir logo ao meu encontro certeiro

Ah, basta!
Sobreveio o tenebroso momento
De estar face a face consigo mesmo, eu sei

A loucura não veio tirar-me os sentidos
E sim restituir-me a visão ao mundo
Assim posso dizer que não lamento
Ainda que infeliz por fora
A felicidade me apraz por dentro,
Por um momento…

Sei que padeço a verdade
Da mesma forma que estás tu a vive-la
E onde afinal jazem as Flores do Mal?

Ó dias de insensatez total!

Caí doente ante as maledicências
Caímos por completo e pó nos tornamos
Antes de renascermos sob as asas da Fenix

E no que pensar diante do Spleen
O jugo que me há de matar?

O fantasma da solidão ronda e incomoda
Tira-o daqui, se podes
Vai, obedeça tua mãe ao menos uma vez

Talvez…


Anto 06-06-06










sábado, 15 de novembro de 2008

O gato


O gato

Pêlo em seda
Tocar-te acalma,
Deixa livre a alma
Dos pensamentos generosos
Deita em cena
Faz breve miau
Procura teu mingau
Morninho na tigela
Tantas vezes saltou a janela
Que as sete vidas já se multiplicaram umas sete vezes
E já tem com ele o treze
Que todo o gatinho preto que se preze
Leva aferrado em sua sombra
Modesta
Manhosa
Criatura dengosa
Pelagem gostosa
Mia, bichano,
Mia…
Se espicha pelo tapete
Rola,
Espreguiça
Se enrosca pelas pernas
E dá mordidinhas de amor
Patadas,
Ronrona
Arranha o tecido da poltrona
Foge,
Se esconde
Do ralhar de seu amo impaciente
Deixando enternecido a ele,
De repente,
Quando está a fazer mais um dengo
E à beira da porta se põe molengo
Querendo um afago
Ou até mesmo uma sobra de peixe


Anto 1°/02/08

Texto sobre relacionamentos - Não trate como prioridade quem te trata como opção

Aldo Novak*

A sua felicidade não pode depender do que não depende de você.
Não trate como prioridade quem te trata como opção.*
A sua vida merece uma chance de ser especial e memorável. E isso inclui em que você se dedique para fazer a vida de alguém especial, feliz e completa.
Com sorte, também significa ter alguém que faça isso por você. Não por dever, apenas, mas por ser um caminho apaixonante da realização.
Mas, infelizmente, no que se refere ao relacionamento entre duas pessoas, não podemos controlar todas as variáveis, as limitantes e os resultados. Até porque os resultados envolvem diferentes percepções, desejos e níveis de comprometimento.
O amor, embora seja um verbo, antes de uma emoção, é uma daquelas áreas nas quais todos nós gostaríamos de controlar os dois lados da equação, mas só podemos controlar o nosso lado. E torcer.
Um romance, seja ele namoro, noivado, casamento ou bodas de diamante, exige que os dois queiram dar um passo em direção ao futuro misterioso todos os dias - juntos. Mesmo que seja para sofrerem juntos, desafiando os problemas.
Se você é do tipo que quer casar, e continuar se comportando como solteiro, então é melhor não casar. Fique como está.
Sei que o que está na moda é a fantasia de que "ser livre" é o melhor.Ser independente. Mas, apesar do estardalhaço que algumas revistas semanais fazem, dizendo que muitas pessoas querem ficar sós, não é a realidade que encontro com meus clientes. Para mim eles, e elas, dizem a verdade. E a verdade é diferente daquilo que dizem para o show da mídia, ou para uma roda de amigos.
Ninguém quer ficar só. As pessoas apenas vestem uma confortável imagem de que a"liberdade" é mais vantajosa do que o compromisso, assim como dizem veementemente que jamais entrarão em um supermercado que os tratou mal - só para irem direto lá, quando tiverem que comprar algo.
Quando o silêncio das paredes internas do coração começa a ser escutado, o "caldo entorna", e você se pega pensando em passar os próximos anos vivendo com aquela pessoa.
Na medida do possível, apoio meus clientes em seus sonhos e desejos. Mas, nem sempre. Há momentos nos quais você deve olhar bem para aquela pessoa que está tratando você apenas como uma opção, uma alternativa temporária, e deixar de ter a vida dela como sua prioridade.
Algumas vezes, ser a pessoa ideal não é o bastante. Especialmente, quando o outro lado da moeda tem uma lista de prioridades enorme, e você aparece em um ingrato 256° lugar.
Naturalmente, há momentos nos quais um amor não pode lhe dar atenção. E ajudo meus clientes a entenderem isso. Há altos e baixos em qualquer vida, por isso não devemos assumir o pior, apenas por um problema temporário.
Mas, há também situações nas quais você precisa entender que talvez haja muito mais dentro de você do que a outra pessoa nota ou dá valor.
Quase dois anos atrás, uma cliente tratou exclusivamente deste problema comigo. Ao final do nosso processo de trabalho, ficou claro que ela não era prioridade nenhuma para o noivo. Era apenas uma opção e um "problema" na agenda. Depois de tentar tudo e mais um pouco, ela rompeu o noivado. Ele teve todas as chances de abrir os olhos.*Ela deixou de tratar como prioridade, aquele que a tratava como opção.*
Na última segunda feira, ela me telefonou e convidou para seu aniversário (é comum meus ex-clientes tornarem-se amigos). Aniversário e noivado. Com outra pessoa, claro. O engraçado da história? É que o "ex" diz ter descoberto, tarde demais, que "ela era a mulher da vida dele". Flores, presentes e telefonemas não adiantaram --minha cliente me autorizou a contar a história, sem revelar seu nome. O que existe no coração dela, agora, são as lembranças de ter sido apenas mais um item, em uma agenda lotada. Agora o coração dela já está em outra vida. Ela tem outra prioridade. E o noivo atual a vê como prioridade também. O verbo amar, entre eles, se transformou no sentimento.
Agora, o ex-noivo é carta fora do baralho. Lembre-se: *Não trate como prioridade quem te trata como opção. * Dê todas as chances que puder. Mas, quando não houver mais o que fazer, não faça. Pare de tentar. Você saberá quando a hora chegou. Você saberá quando já tentou tudo. E, quando chegar este momento, olhe ao redor. Se alguém não trata você como prioridade, há quem trate. Ai pertinho de você. É só olhar com o coração. Você merece ser prioridade de alguém. Você merece ser o rei, ou a rainha, e não o vassalo, ou vassala. O amor é um jogo de "iguais de coração".

Aldo Novak - jornalista, conferencista e coach

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Incansável

Incansável

Na inexatidão dessas palavras
Encontro-te
Quase um octópode
Com teus oito braços
Cada qual com sua função
Obedecendo ao cérebro
Em irrefreável comunicação
Um acanhamento mobiliza
A boca entreaberta na pergunta
Lá fica, se paralisa
E num instante
A verborragia toma a direção contrária

Anto 13/11/08

Você sabe o que é um passeio socrático?

Você sabe o que é um passeio socrático?
Frei Betto*

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: - Não foi à aula? Ela respondeu: - Não, tenho aula à tarde. Comemorei: - Que bom! Então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde. - Não, retrucou ela, tenho tanta coisa de manhã... - Que tanta coisa?, perguntei. - Aulas de inglês, de balé, de pintura, natação, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: - Como estava o defunto? - Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!

Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais.


Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais... Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem se deixa iludir desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios.

Quem resiste, se sente louco porque não faz parte da neurose coletiva. Os psicanalistas - que também desejam 'ter' e não se satisfazem com o que são, o que amam, o que fazem - tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. O grande desafio é gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus, como os que outrora foram convencidos a comprar a própria absolvição. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's.. .

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: - Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: - Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: 'Estou apenas observando quanta coisa existe e das quais não preciso para ser feliz.'


*Frei Betto - Frei dominicano. Escritor. Autor, em parceria com Luís Fernando Veríssimo e outros, de 'O desafio ético' (Editora Garamond), entre outros livros.